Como o TDAH se apresenta
Existem três apresentações, e nem todas incluem agitação. A criança quieta que vive no mundo da lua também pode ter TDAH, e costuma demorar mais para ser identificada.
Predomínio de desatenção
- Perde material, esquece tarefas, não termina o que começa
- Parece não escutar quando falam diretamente com ela
- Se distrai com qualquer estímulo, se desliga durante a explicação
- Evita tarefas que exigem esforço mental sustentado
- Erros por descuido em provas que ela sabe a matéria
Predomínio de hiperatividade e impulsividade
- Não para sentada, mexe mãos e pés, levanta o tempo todo
- Fala demais, interrompe, responde antes de a pergunta terminar
- Dificuldade em esperar a vez
- Age antes de pensar, se machuca com frequência
Apresentação combinada
Reúne sintomas dos dois grupos. É a apresentação mais frequente na infância.
TDAH ou imaturidade?
Essa é a pergunta central, e ela tem quatro filtros:
- Intensidade: é mais do que se espera de outras crianças da mesma idade?
- Persistência: dura pelo menos seis meses, e não é reação a um evento recente?
- Múltiplos ambientes: aparece em casa, na escola e em outros contextos, ou só num deles?
- Prejuízo real: atrapalha o aprendizado, a convivência ou a autoestima da criança?
Quando o comportamento aparece só na escola, vale investigar o que acontece na escola. Quando aparece só em casa, vale olhar a rotina e a dinâmica familiar. TDAH é global, não situacional.
Também é preciso descartar o que imita TDAH: privação de sono, apneia do sono, ansiedade, dificuldade de aprendizagem específica (a criança se dispersa porque não está acompanhando), perda auditiva leve, epilepsia com ausências e questões emocionais.
Como é a avaliação
A avaliação reúne informação de fontes diferentes, porque nenhuma delas sozinha é suficiente:
- História detalhada com a família, incluindo desenvolvimento, sono, rotina e histórico escolar desde a educação infantil
- Relatório da escola, que costuma ser a informação mais valiosa da avaliação
- Escalas padronizadas preenchidas por pais e professores
- Exame neurológico e rastreio de comorbidades: dislexia, ansiedade, TEA, distúrbio do sono
- Avaliação neuropsicológica, quando o quadro exige melhor definição do perfil cognitivo
Tratamento
O tratamento é multimodal. Medicação sozinha não resolve, e recusa a medicação em quadro grave também não.
- Psicoeducação da família: entender o que é e o que não é TDAH muda a forma como a casa lida com a criança, e isso, por si só, reduz conflito.
- Adaptação escolar: lugar na frente, instruções fracionadas, tempo adicional de prova, checklists visuais.
- Organização da rotina: sono regular, tela controlada, atividade física, tarefas divididas em blocos curtos.
- Terapia comportamental e, na adolescência, treino de funções executivas.
- Medicação, quando indicada. É eficaz e bem estudada. A decisão é individual, discutida com a família, com objetivo claro e monitoramento de resposta e efeitos.
O papel da escola
A escola é parceira, não juíza. O que se pede ao professor é descrição concreta, não diagnóstico: em que momentos a criança se desorganiza, quanto tempo sustenta uma tarefa, como se sai em prova oral comparado a prova escrita, como é o recreio. É essa informação que dá contorno ao quadro.