Sinais por faixa etária
O autismo é um espectro. Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem ser muito diferentes entre si. Ainda assim, alguns sinais se repetem e são os que fazem a família procurar avaliação.
Até 12 meses
- Pouco ou nenhum contato visual sustentado
- Não sorri em resposta ao sorriso do adulto
- Não responde ao próprio nome aos 9 a 12 meses
- Não balbucia, não aponta, não acena tchau
- Não busca o colo nem estende os braços
Entre 12 e 24 meses
- Não aponta para mostrar algo que achou interessante (apontar de compartilhamento)
- Não imita gestos e brincadeiras simples
- Ausência de palavras aos 18 meses ou de frases de duas palavras aos 24
- Regressão: perde palavras, gestos ou contato que já tinha
- Brinca sempre do mesmo jeito, enfileira objetos, prefere partes do brinquedo à função dele
Acima de 2 anos
- Dificuldade em brincar com outras crianças, prefere brincar sozinho
- Fala presente, mas com uso social limitado: repete falas de vídeos, fala "de si" mais do que "com" alguém
- Rigidez com rotinas, reação intensa a mudanças pequenas
- Hiper ou hiporreatividade sensorial: incomodo com barulho, textura, etiqueta de roupa, luz
- Movimentos repetitivos: balançar o corpo, girar, bater as mãos quando animado
Um sinal isolado não define nada. O que pesa é o conjunto, a persistência ao longo do tempo e o impacto na vida da criança.
Como é feito o diagnóstico
Não existe exame que diagnostique autismo. O diagnóstico é clínico e se apoia em três pilares:
- História do desenvolvimento, contada pela família em detalhe: gestação, parto, marcos motores, linguagem, brincar, sono, alimentação e comportamento.
- Observação direta da criança em situação de interação e brincadeira, durante a consulta.
- Informação de outros contextos: relatório da escola, da fonoaudióloga, da terapeuta ocupacional e da psicóloga, quando já existem.
Exames como ressonância, eletroencefalograma e testes genéticos não fecham o diagnóstico de autismo. Eles são solicitados quando há suspeita de uma condição associada, por exemplo epilepsia, síndrome genética ou regressão importante. Pedir exame demais atrasa a intervenção tanto quanto pedir de menos.
O que acontece na consulta
A avaliação leva tempo porque a maior parte da informação está na história, não no exame. Na prática, a consulta cobre:
- Linha do tempo do desenvolvimento, marco a marco
- Como a criança se comunica hoje, com e sem palavras
- Como ela brinca, sozinha e com outros
- Perfil sensorial, sono, alimentação e comportamento
- Exame neurológico completo, adaptado à idade
- Rastreio de condições que costumam andar juntas: TDAH, epilepsia, distúrbio do sono, deficiência intelectual
Vídeos curtos gravados em casa ajudam muito. Muita coisa que a família descreve não aparece nos 60 minutos da consulta, e o vídeo resolve isso.
Depois do diagnóstico
O diagnóstico não é o fim da linha, é o começo do plano. O que vem depois:
- Terapias: fonoaudiologia, terapia ocupacional com integração sensorial, psicologia com abordagem baseada em evidência, e psicomotricidade quando indicado. A intensidade é definida pelo perfil da criança.
- Escola: relatório para adaptação curricular, mediador quando necessário, e alinhamento com a coordenação pedagógica.
- Direitos: o laudo dá acesso a garantias previstas em lei, como prioridade de atendimento e apoio escolar.
- Medicação: não trata o autismo em si. É usada apenas para sintomas específicos que atrapalham, como agitação intensa, agressividade ou insônia grave, e sempre com objetivo e prazo definidos.
- Reavaliação: o quadro muda com o tempo. Retornos periódicos ajustam o plano.
Mitos que atrapalham
- "É preguiça de falar, vai desenrolar." Talvez. Mas a única forma de saber é avaliando, e o custo de esperar é alto.
- "Autismo é causado por vacina." Não é. Essa associação foi investigada em estudos com milhões de crianças e nunca se confirmou.
- "Ele olha nos olhos, então não é autismo." Muitas crianças no espectro mantêm contato visual, principalmente as com menor necessidade de suporte.
- "Só dá para diagnosticar depois dos 3 anos." Sinais consistentes podem ser identificados bem antes, e a intervenção precoce é o que mais muda o prognóstico.