Crises e epilepsia

Epilepsia e crises convulsivas na infância

O que fazer durante uma convulsão, quando uma crise vira epilepsia, como é a investigação com eletroencefalograma e como funciona o tratamento em crianças.

Em resumo

Uma crise convulsiva é uma descarga elétrica anormal e transitória no cérebro. Uma crise isolada não é epilepsia. O diagnóstico de epilepsia é feito quando há duas ou mais crises não provocadas separadas por mais de 24 horas, ou uma crise com alta chance de recorrência confirmada por exame. A maioria das epilepsias da infância responde bem à medicação, e uma parte delas desaparece com o crescimento.

O que fazer durante uma crise

  • Mantenha a calma e marque a hora. A duração é a informação mais importante para o médico.
  • Deite a criança de lado, no chão, longe de móveis e objetos duros.
  • Afrouxe a roupa em volta do pescoço. Coloque algo macio sob a cabeça.
  • Não coloque nada na boca. Não existe risco de engolir a língua, e objetos na boca causam lesão.
  • Não segure os movimentos nem tente conter a criança à força.
  • Filme, se houver outra pessoa disponível. O vídeo vale mais que qualquer descrição.
  • Chame emergência se: a crise passar de 5 minutos, se repetir sem recuperar a consciência entre elas, se houver dificuldade para respirar, se for a primeira crise da vida, ou se ocorrer dentro da água.
  • Após a crise, é normal que a criança fique sonolenta e confusa por algum tempo. Fique ao lado até a recuperação completa.

Tipos de crise

Nem toda crise é a convulsão clássica com queda e abalos. Muitas passam despercebidas por anos.

  • Tônico-clônica generalizada: perda de consciência, enrijecimento seguido de abalos, salivação, às vezes perda de urina. É a mais reconhecida.
  • Ausências: a criança "desliga" por alguns segundos, olhar parado, para no meio da frase, e retoma como se nada tivesse acontecido. Costuma ser confundida com desatenção e com TDAH.
  • Focais: começam em uma área do cérebro. Podem se manifestar como movimento repetido de um lado do corpo, sensação estranha, medo súbito, automatismos como mastigar ou mexer as mãos.
  • Mioclônicas: abalos rápidos e breves, comuns ao acordar, que derrubam objetos das mãos.
  • Espasmos do lactente: flexões bruscas em salvas no bebê. É urgência neurológica e exige avaliação imediata.

Convulsão febril

É a crise mais comum da infância, entre 6 meses e 5 anos, desencadeada pela febre. Assusta profundamente, e a boa notícia é que a maioria é benigna.

  • Ocorre em cerca de 1 em cada 25 crianças
  • Convulsão febril não é epilepsia, e a maioria das crianças não desenvolve epilepsia depois
  • Não causa lesão cerebral nem atraso no desenvolvimento quando é simples e breve
  • Pode repetir em episódios febris futuros, e a família precisa saber como agir
  • Merece investigação mais cuidadosa se durar mais de 15 minutos, se acometer só um lado do corpo, se repetir no mesmo episódio febril ou se ocorrer fora da faixa etária típica

Investigação

  • História e vídeo da crise: o pilar do diagnóstico. Como começou, o que a criança fez, quanto tempo durou, como ficou depois.
  • Eletroencefalograma (EEG): registra a atividade elétrica do cérebro. Um EEG normal não exclui epilepsia, e um EEG alterado sozinho não fecha o diagnóstico.
  • Ressonância magnética de crânio: indicada em crises focais, exame neurológico alterado ou epilepsia de difícil controle.
  • Exames laboratoriais: para descartar causas metabólicas, infecciosas ou de eletrólitos.
  • Investigação genética: em síndromes epilépticas específicas ou quando há atraso do desenvolvimento associado.

Tratamento

Cerca de dois terços das crianças com epilepsia ficam livres de crises com a medicação adequada. O objetivo é sempre o mesmo: nenhuma crise, com o menor efeito colateral possível.

  • A escolha do medicamento depende do tipo de crise e da síndrome epiléptica, não é a mesma para todos
  • O ajuste é gradual, e o acompanhamento monitora resposta, efeitos e desenvolvimento
  • Não se suspende medicação por conta própria: a retirada abrupta é uma das principais causas de crise grave
  • Em várias epilepsias da infância, a medicação é retirada após um período sem crises, com acompanhamento
  • Sono regular é parte do tratamento. Privação de sono é um dos maiores gatilhos de crise
  • Nas epilepsias de difícil controle existem outras opções, como dieta cetogênica e avaliação cirúrgica

Perguntas frequentes

Uma convulsão significa que meu filho tem epilepsia?

Não. Uma crise isolada pode ter causa identificável, como febre alta, infecção, queda de glicose ou distúrbio de eletrólitos. O diagnóstico de epilepsia exige duas ou mais crises não provocadas, ou uma crise com risco elevado de recorrência confirmado por exame.

Criança com epilepsia pode ir à escola e fazer esporte?

Pode, e deve. A orientação é que a escola saiba do diagnóstico e do que fazer em caso de crise. Esportes são liberados na maioria dos casos, com atenção especial à natação, que exige supervisão constante de um adulto informado, e a esportes com risco de queda de altura.

O eletroencefalograma dói?

Não. O exame registra a atividade elétrica do cérebro por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo com uma pasta. Não há choque nem dor. Em crianças pequenas, costuma ser feito durante o sono, e a orientação de preparo é dada antes.

Epilepsia atrapalha o aprendizado?

Pode atrapalhar, por três motivos diferentes: as próprias crises, principalmente as ausências que passam despercebidas em sala; a atividade elétrica anormal entre as crises; e o efeito de algumas medicações. Por isso o acompanhamento avalia rendimento escolar, e não só a contagem de crises.

Meu filho vai tomar remédio para sempre?

Em muitos casos, não. Após um período livre de crises, geralmente de dois anos, e com avaliação clínica e de exames favorável, a retirada gradual da medicação é considerada. Boa parte das epilepsias da infância se resolve com o crescimento.

Alguma coisa aqui parece com o seu filho?

Uma avaliação que conclui que está tudo bem também é um resultado valioso. O que não compensa é ficar na dúvida.